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Equilibrando o medo

Não há uma única aventura clássica em que o protagonista não tenha seus limites testados em uma série de situações. Os enredos sempre alternam entre ser destemido e os momentos em que o herói simplesmente trava. Do pavor de cobra do arqueólogo Indiana Jones, passando pelo medo de voar do Super-Homem, à falta de coragem de Frodo em diversas etapas de sua jornada em O Senhor dos Anéis, a “situação-teste” está sempre ali no roteiro.

Em nossas vidas acontece assim também. E quanto antes educarmos as crianças a lidar com seus impedimentos e buscar conquistas, melhor. O ponto alto aqui é o equilíbrio. Isso porque o medo não é apenas algo natural, mas necessário para nossa sobrevivência. Não há evolução sem algo a temer. É justamente o jeito de tratar isso que nos dá a chave para seguir em frente, pois não se pode viver em função dele.

E aqui o papel dos pais é essencial. É preciso ser forte. “Pode parecer contraintuitivo, mas ajudar a criança a desenvolver autoconfiança envolve ficar por perto e observá-la saindo de sua zona de conforto. Isso exige coragem de sua parte. Quanto mais confiante e corajosa a criança se tornar, mais coragem você precisará ter para apoiar o crescimento dela”, escreveu o psicólogo australiano Anthony Gunn em Como Criar Filhos Autoconfiantes (Ed. Gente), lançado no final do passado no Brasil. Você entendeu certo: seu filho vai correr riscos.

Fácil não é, sabemos. E mais: não parece que hoje temos ainda mais medo que antes? Fora os temores ligados aos desafios do desenvolvimento (escuro, monstros, altura, ficar sozinho), há uma tensão geral, a sociedade está mais agressiva. Um dos maiores especialistas em transtorno de estresse pós-traumático do Brasil, o psiquiatra e psicoterapeuta Eduardo Ferreira-Santos, de São Paulo, assiste ao clima de pavor atingindo as crianças. “Elas estão vivendo um reflexo do medo dos adultos, que o transmitem em um conjunto de restrições”, diz ele, que criou no Hospital das Clínicas o Grupo Especializado no Atendimento a Vítimas da Violência Urbana (Gorip), e viu inúmeros casos em que os pais estavam sempre mais apavorados que os filhos, inclusive quando a violência acontecia com as próprias crianças. Por conta disso, nos sentimos mais expostos, mais vulneráveis e, por consequência, mais presos. Pura contradição. Temos medo, nos fechamos e quando nos fechamos ficamos menos capazes de enfrentá-lo, pois só a experiência pode ajudar.

A contradição continua quando pensamos que, para sobreviver aos tempos de hoje, há um segredo importante: autoconfiança. Está lá no topo de qualquer livro de autoajuda para se obter sucesso na vida. Crianças estimuladas a serem autoconfiantes desde cedo são mais curiosas, mais abertas ao aprendizado, mais sociáveis e mais propensas a serem felizes, dizem as pesquisas. Mas, antes de tudo, precisam ser e se sentir livres. “Eu ousaria usar a palavra paranoico, mesmo que entre aspas. Pais ‘paranoicos’ geram filhos fóbicos. Sabe aquele ‘não faça’, ‘olha isso’, ‘cuidado’, vai gerando uma criança com medo de tudo”, diz o psiquiatra. Isso não quer dizer deixar os filhos fazerem o que bem entendem, porque os limites também educam.

Ele mesmo viveu isso na pele. Quando seu filho, hoje com 22 anos, quis se equilibrar em cima de um muro, ele deixou, mesmo querendo dizer não e sabendo que o menino poderia se machucar. “Fiquei com o coração na mão. É claro que não estávamos em um precipício e eu o tempo todo bem por perto sempre. Ele exercia uma liberdade com uma margem de segurança.”

Mas essa é uma dinâmica difícil de escapar. Exercer a autonomia de uma criança hoje parece mais um jogo de onde se perde mais ou menos.

 

Medo ou fobia?

O medo é uma emoção natural do ser humano, um aliado à sobrevivência. Fobia é um medo excessivo, desmedido, que surge na presença ou previsão de encontro com o objeto que causa a ansiedade. “Um jeito de saber se está passando da conta é quando há sofrimento na criança e se a vida familiar fica limitada por causa do medo. Aí é hora de buscar ajuda”, diz Neuza Corassa, psicóloga de Curitiba

 

O medo também entrou sorrateiramente na casa da escritora e ilustradora Silvana Rando. Quando a filha Verônica tinha 7 anos, a escola fez uma ação para falar do medo por meio das histórias. Mas foi por meio dos colegas que ela conheceu a lenda da loira do banheiro. Não deu outra: a menina não ia mais ao banheiro sozinha, nem mesmo em casa. “Ela nunca foi uma criança com muitos medos, mas vimos que ela começou a mudar a rotina, e não dizia por quê. Precisou de muito tempo para ela se abrir. Fomos incentivando que mudasse, mas sem pressionar”, conta a ilustradora. A história não parou por aí. Silvana preparava mais um livro quando viu que tinha o tema medo para compartilhar com os leitores.

Assim nasceu o adorável Gildo (Ed. Brinque-Book) que dá nome ao livro (Prêmio Jabuti de melhor ilustração de livro infantil em 2011), um elefante que não se importa com montanha-russa, nem filmes de terror, mas que odeia bexigas. “Pensei em um medo que fosse mais neutro.” Mas ela fez mais: em uma espécie de “homenagem” às mães, incluiu pelo livro todo o desenho de uma pequena barata. Ela jura que nunca teve medo do inseto. “Quando criança tinha medo de gato brigando no telhado. Aquele barulhão me deixava apavorada”, afirma a escritora, fazendo coro a um temor comum aos bem pequenos, como o de Victor, 4, filho da designer Andréa Cristina Naliato Quitério. “Desde muito pequeno, ele tem medo de rojões e barulhos muito altos, como sons, buzinas e campainhas”, conta. Ela tem um palpite sobre a origem do incômodo. “Ficamos pensando se , sem querer, ajudamos a provocá-lo de alguma forma, quando ele ainda era bebê, pois, em dias de jogo de futebol, eu ficava atenta o tempo todo e, a cada barulho mais forte, corria até o berço para tampar o ouvidinho dele.”

A dona de casa Carla Alessandra Chiarella de Carvalho também desconfia que ela possa ter influenciado o comportamento da filha Giulia, 7. Ela teve uma depressão pós-parto diagnosticada quando a pequena já tinha 1 ano, mas até começar o tratamento, Carla viveu vários sufocos. “Se ela estava perto da escada, eu podia vê-la rolando, toda ensanguentada. Um horror”, recorda. Embora nunca tenha apresentado nada parecido antes, hoje a menina se apavora com mosquitos de banheiro e se recusa a tomar banho sozinha, diz que sonha com um ladrão entrando na casa e matando toda a família. “No banho, por exmplo, entro com ela e depois vou saindo de vez em quando, dizendo que vou pegar algo mas que estou por ali. Quero que ela vá se acostumando a ficar sozinha. Quando conversamos sobre seus medos, conto que também tenho os meus também e que sempre irei ajudá-la.”

A influência dos pais no medo dos filhos, claro, é importantíssima, para o bem e para o mal. Se medo se aprende? É possível. Você receia que seu filho herde seu pavor de insetos? Então, é bom procurar tratamento ou prepare-se para disfarçar. “Um aspecto é o da base genética. As regiões do cérebro relacionadas à sensação do medo podem ter mais ou menos sensibilidade de acordo com a predisposição genética do indivíduo. Existem evidências que comprovam: famílias de pessoas com ansiedade e fobias apresentam mais tendência a ter filhos também com ansiedade e fobias. Do ponto de vista comportamental, os pais têm determinado medo e modelizam para a criança o jeito de responder ou evitar certa situação”, diz o neuropediatra Mauro Muszkat, coordenador do Núcleo de Atendimento Neuropsicológico Infantil Interdisciplinar (Nani), da Unifesp.

Educar pelo medo, então, nem pensar. Fuja da tentação de um “não vai lá atrás que está cheio de bichos” para poder segurar seu filho por perto. O tiro pode sair pela culatra. “Não deixa de ser uma forma rápida e fácil de exercer o controle sobre os filhos, mas que, ao longo do tempo, pode torná-los inseguros e ansiosos. Portanto, para educar um filho é preciso dispor de tempo e paciência para explicar tudo e até permitir que eles se machuquem (dentro de um determinado limite, claro!), de forma que eles possam levar a sério quando os pais disserem, no futuro, ‘não faça isso porque você pode se machucar e sofrer’”, diz Olga Tessari, psicóloga e escritora de São Paulo, autora do livro Dirija sua Vida sem Medo (Ed. Letras Jurídicas).

 

Saia da rotina

Veja os truques do psicólogo Anthony Gunn retirados do livro Como Criar Filhos Autoconfiantes (Ed. Gente), para tirar seu filho da zona do conforto, que não têm nada a ver com correr perigo

* Jantar diferente: na hora da refeição, use talheres trocados ou coma com palitos japoneses

* Mudança de lugar: troque os lugares das pessoas na hora de jantar ou para assistir televisão ou ainda experimente comer a sobremesa debaixo da mesa de jantar (as crianças adoram isso!)

* Desenho com a mão trocada: se for destro, desenhe com a mão esquerda e vice-versa.

* Lendo do fim para o começo: leia uma história curta e com imagens, mas de trás pra frente.

 

Terror noturno

Embora aconteça em 40% das crianças até os 3 anos, não tem nada a ver com os medos da criança. “Ele aparenta um pesadelo, e acontece na fase do sono mais profundo, quando ia passar para o sono em que se sonha. Mas a criança não lembra de nada”, afirma a neuropediatra Márcia Pradella-Hallinan, coordenadora do setor de pediatria do Instituto do Sono da Unifesp. Se passar de três vezes por semana, procure ajuda profissional.

 

Arte para os sentimentos

Quem acompanha as matérias da CRESCER não vai se surpreender: as artes também se encaixam como ferramenta preciosa aqui. As histórias, por exemplo, são ótimas maneiras de a criança se preparar para situações futuras. Ou até nominar o que ela não sabe expressar, como se fosse uma conversa com os nossos sentimentos. “Ao longo dos tempos a imaginação vem sendo usada assim, pela capacidade que o ser humano tem de exercer função simbólica. Ou seja, se não consegue entender o sentimento, projeta-se isso em algo com o que você consiga lidar. Assim a bruxa não é ameaçadora para a criança que ouve a história e sim libertadora”, diz a pesquisadora em desenvolvimento humano Elvira Souza Lima, autora de A Criança Pequena e suas Linguagens (Ed. Sobradinho).

Por essas e outras, o Sesc Vila Mariana, localizado na zona sul de São Paulo, exibe até abril a mostra Você Tem Medo de Quê?, com peças de teatro de companhias premiadas que tenham o tema em seu repertório, e mesas-redondas e oficinas para crianças e pais. Pasme para a inspiração do projeto: os pais. “É instintivo, eles querem cuidar, mas, em geral, têm um comportamento que não ajuda: ou eles retiram a criança da plateia antes ou ao menor sinal de desconforto, ou tentam diminuir dizendo algo como ‘olha lá, é de mentirinha’. Pensando nisso, resolvemos não apenas montar um repertório focado no tema, mas também conversar com os pais, seja no final dos espetáculos, seja nos encontros que promoveremos ao longo da temporada”, afirma Rodrigo Gerace, animador cultural do espaço e responsável pelo projeto. E nada de assustar as crianças. Nenhuma das peças têm bruxas, monstros ou figurinos amedrontadores. “O foco é trabalhar o medo como sentimento e não como sensação”, conta.

Produzir arte também ajuda, pois é uma forma de a criança elaborar diversos conflitos, inclusive seus medos. O conselho vem da atriz Ligia Cortez, diretora da Casa do Teatro, que ministra cursos de artes em diversas linguagens para crianças a partir de 4 anos, e jovens até os 20, em São Paulo. “Para cuidar da autoconfiança da criança há algumas atitudes importantes. Primeiro, deixar espaço para a criança criar. Depois, valorizar o produto criativo dela, sem julgamentos. Muitas vezes os pais acham que o certo é o limpinho, mas não há certo e errado. Se o desenho está torto é o que menos importa. Hoje está tudo muito concreto, tudo pela técnica, mas temos que cuidar da formação humana das crianças.” Ela diz que quando a Casa abriu, em 1983, o principal problema das crianças era a separação. “Hoje é o medo de ser rejeitada”. Muitos alunos chegam indicados pelo psicólogo. “Mas aqui não se muda ninguém. O teatro é terapêutico, não é terapia. A criança consegue se expressar. Muda o jeito de ela lidar consigo mesma. O tímido vai ver que outra criança é mais tímida que ela e ainda assim conseguiu falar. E o mais atirado vai ver revelado uma insegurança escondida”, conta Ligia, mãe de Vitória, 25 anos, e Clara, 12.

O medo da rejeição acontece desde os tempos que vivíamos em aldeias, quando ser expulso de um grupo era um tipo de morte. Segundo o psicólogo Anthony Gunn, enraizamos isso. Em entrevista à CRESCER, ele aponta que, se o temor da criança for muito intenso, e passar dos seis meses, é hora de procurar ajuda. Em qualquer caso, ele alerta: “Respeite o medo, não importa o quão maluco ele pareça, encoraje a criança a encará-lo em passos graduais e seja um modelo para seu filho, inclusive na hora de ajudá-lo a enfrentar tudo”. Para que ele se sinta acolhido por você, a vida toda.

 

Os medos e suas fases

Eles estão ligados a etapas específicas do desenvolvimento, e o modo e a intensidade varia de criança para criança – têm relação com a personalidade dela, a dos pais, entre outros fatores. Com o crescimento e a maturação cognitiva e emocional, a criança vai encontrando estratégias eficazes para lidar com os medos, e sua ajuda é fundamental, claro.

No início, o que mais os assusta são barulhos ou luzes muito fortes.
A partir dos 2 anos, é frequente a criança começar a temer ser abandonada pelos pais e qualquer separação pode representar isso. Também nessa fase se verifica um aumento do medo dos animais, que costuma perdurar até por volta dos 4.

Perto dos 3, a imaginação assume um papel preponderante e aí chegam o medo do escuro, dos monstros, dos fantasmas, dos ladrões, entre outros. Aumenta na hora de dormir, momento em que a criança se sente “desprotegida”.

Aos 6, ela atinge uma fase de desenvolvimento que lhe permite encarar a morte como algo irreversível, perdendo o seu lado fantasioso e assumindo uma vertente mais concreta, daí o medo que os pais morram. Ele começa também a dar atenção para outros pontos, principalmente na escola, onde podem surgir receios ligados a essa nova etapa da vida e o medo de se expor.

Fonte: Graziela Zlotnik Chehaibar, psicóloga e terapeuta familiar de São Paulo (SP) e pesquisadora na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

 

Fonte: Revista Crescer

 

 

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